Para acordar, olho meu celular, abro uma rede social qualquer e passo os primeiros 10 a 20 minutos do meu dia consumindo a seleção desleixada de conteúdo feita especialmente para mim. Tomo café, escovo meus dentes, me sento na frente de um computador e trabalho com inteligência artificial. Uso a tecnologia, estudo a tecnologia… e, mesmo quando escrevo e procuro ser criativo, ela está aqui, me auxiliando, me podando, me observando.
Pensando bem, quem eu mais quero agradar no final do dia são os algoritmos. Fico esperando que eles olhem o meu trabalho e, por um capricho ou outro, o coloquem aí, no seu feed.
AI slop, escrita de IA, marketing de IA, soberania de IA, funcionalidades com IA. Tantos termos que às vezes sinto que estou me afogando no volume de aplicativos, conteúdos e propagandas que sou forçado a engolir…
Na verdade, ninguém me força. Eu que vou atrás, abro os aplicativos assim que acordo e antes de dormir. Eu que gosto de estudar esse assunto e aprender um pouco mais, ficar à frente da curva.
Eu que quero usar essa ferramenta para tornar meu trabalho melhor e o trabalho das outras pessoas também. Mas quanto mais estudo, quanto mais aprofundo meu conhecimento, mais me pergunto: essa tecnologia pode fornecer o que eu realmente quero? Mais ainda, o que queremos tanto com “IA isso”, “IA aquilo”? Esse admirável mundo novo que se insinua nos noticiários é real?
Uma IA para chamar de sua
O turbilhão de manchetes, propagandas e opiniões que aparecem no meu feed pinta um cenário idílico ou apocalíptico, dependendo do momento. Diante do caos, a inteligência artificial aponta um sentido: modernização, produtividade e controle. Frente à competitividade do mercado de trabalho, utilizar a ferramenta aparece como regra nos escritórios, e quem não estiver de olho na melhor do momento corre o risco de ficar para trás. Para quem despenca no tédio, sempre existe um meme ruim gerado por IA em algum canto da internet, feito especialmente para o seu perfil de navegação.
A inteligência artificial se apresenta como a resposta para todos esses anseios. Mas o caos, a competitividade e o tédio continuam. Ainda assim, o mercado cresce, as ferramentas crescem, ganhamos controle de alguns aspectos das nossas vidas, perdemos o de outros, ficamos mais produtivos, o salário continua o mesmo, e damos uma leve risada antes de perceber que os animais fofos pulando no trampolim foram gerados artificialmente — e passamos para o próximo vídeo.
Talvez o que alimente esse desejo seja ter algo sempre disponível para oferecer uma gota de conforto sempre que precisarmos. Quando temos uma dúvida, uma demanda mais difícil do que o normal ou mais chata do que podemos aguentar, a inteligência artificial está ali para ajudar. Na falta de alguém para conversar ou de algo para fazer, é só pegar o celular e ver o que o algoritmo escolheu especialmente para mim. Com IA, não existe desafio grande demais, não preciso me sentir desconfortável ao fazer uma pergunta boba, não sou julgado, todas as minhas ideias são boas… só preciso melhorar uma coisa aqui e ali e, bum, sucesso.
O que eu quero da inteligência artificial
Com o robô, eu sou livre para fazer o que realmente importa. Tenho a ideia, ele me ajuda a encontrar o melhor caminho. Eu fico com a decisão e com a parte criativa, ele faz a parte chata. Com o robô, eu nunca me arrisco de verdade. Com ele, tudo está confortável.
Apesar de toda essa divagação sem sentido, não sei o que queremos com a inteligência artificial. E, por mais que eu tente navegar nesse mar de informação que consumo todos os dias, só consigo ficar com a cabeça fora d’água graças ao meu colete salva-vidas.
Mas pelo menos eu sei o que eu quero. Eu quero eficiência, velocidade, qualidade, objetividade, certeza e controle. Eu quero a resposta para todas as perguntas do mundo! Um sistema computacional preditivo, capaz de analisar um ambiente e tomar ações com algum grau de autonomia, pode me dar tudo isso? Eu tenho minhas dúvidas.
Acredito que, quando nos deparamos com uma nova tecnologia — seja o rádio, a TV, o computador, a internet ou, agora, a inteligência artificial —, acabamos projetando nela nossos anseios. Achamos que, com a tecnologia e o progresso, um dia vamos nos libertar do que nos incomoda e ser capazes de fazer mais daquilo que realmente importa. A realidade é que sempre progredimos em algumas áreas e regredimos em outras.
Para dormir, olho meu celular, abro uma rede social qualquer e passo os primeiros minutos da noite com a seleção desleixada de conteúdo feita especialmente para mim. Antes de largar o telefone, confiro se alguém, ou algo, reparou no que escrevi hoje. Amanhã acordo e começo tudo de novo.

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