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  • Por que é tão difícil achar conteúdo de qualidade hoje em dia?

    Por que é tão difícil achar conteúdo de qualidade hoje em dia?

    No mar de informação que é a internet, me incomoda profundamente passar longos minutos procurando conteúdo de qualidade. Ainda assim, me vejo passando por isso todos os dias e minha impressão pessoal é que tem piorado recentemente.

    Para mim, isso vai muito além do simples slop feito por IA que aparece no meu feed e estraga minha sessão diária de apodrecimento cerebral relaxante. Quando vou tirar uma dúvida, fico pulando de site em site só para ter certeza de que não estou sendo enganado por nenhuma IA ou copywriter chinfrim. Quando vejo uma manchete, preciso ler pelo menos três outras matérias antes de conseguir entender e, pior, confiar no que está sendo dito. Sinceramente, sinto que no streaming passo mais tempo olhando as recomendações do que de fato assistindo a alguma coisa.

    Talvez esse seja um nível de neurose particularmente meu, mas não tenho dúvida de que todas as pessoas que gostam de consumir conteúdo de qualidade sentem pelo menos um pouco dessa dificuldade. 

    Depois de passar mais tempo do que o clinicamente saudável remoendo essa irritação diária, cheguei à conclusão óbvia: não é um bug, é uma feature. Afinal, o propósito das redes não é qualidade, é reter a sua atenção.

    A era da informação, a era do slop

    Longe estão os dias da internet em que um publicador produzia conteúdo de qualidade, o usuário prestava atenção e essa atenção era então monetizada, permitindo que o publicador continuasse produzindo. A sedimentação das redes sociais e a evolução dos algoritmos conduziram a um consumo de informação mais passivo do que nunca.

    O segredo do sucesso das maiores empresas da internet está na capacidade de manter o usuário o maior tempo possível em suas plataformas e coletar seus dados, de modo a conhecê-lo mais do que jamais foi possível; e empurrar o maior número de anúncios possível na sua tela sem que ele deixe o celular de lado e vá ler um livro. 

    Nesse novo mundo que surgiu das redes sociais, não importa se um conteúdo é ruim, falso, de mau gosto ou desafia o bom senso: se ele retém sua atenção, ele é o conteúdo que chega até você. E o que você consumir vai existir mais.

    Ora, quando passo dezenas de minutos surfando numa plataforma ou pulando de página em página atrás de algo que passe pelos meus critérios de qualidade, a plataforma está ganhando dinheiro porque estou nela; quem criou o conteúdo, seja ele bom ou ruim, está ganhando dinheiro porque estou prestando atenção nele; eu até ganho quando finalmente encontro o que quero. A única coisa que se perde nesse processo é o meu tempo.

    É o caminho de menor resistência

    Na era da comunicação como produto, o único elemento que legitima qualquer conteúdo como bom ou ruim é a atenção humana. Antes da internet também era assim. Mesmo quando apenas os grandes nomes do mercado definiam o que era bom ou ruim e ditavam o rumo da mídia com mão de ferro, era a capacidade de vender o conteúdo, seja ele uma música, um livro ou um jornal, para o maior número de pessoas possível que legitimava qualquer decisão. 

    Não é à toa que músicas genéricas, livros sem alma e textos jornalísticos sem qualquer rigor editorial não são coisa nova. Em 1835, o New York Sun publicou uma série de reportagens “revelando” que um astrônomo célebre havia descoberto homens-morcego e unicórnios vivendo na Lua. O jornal era de Benjamin Day, inventor da fórmula “um centavo, um jornal”, o pioneiro do mundo em que vivemos. O Grande Engodo da Lua multiplicou a circulação, e ninguém devolveu o centavo.

    Hoje falamos de crise nas editoras e nos jornais, distribuição viral de desinformação, slop de IA. Numa análise mais catastrófica, poderíamos achar que é o fim de uma era, que a internet vai virar um deserto sem vida, habitado por bots conversando com bots. Não acredito. Para que esse projeto seja economicamente viável, valor precisa ser extraído de usuários humanos, seja por uma campanha de marketing, seja pela coleta dos seus dados. Nesse contexto, as plataformas não vão permitir que os bots façam tudo… eu acho. 

    O que eu vejo é um estreitamento do mercado editorial e a hegemonia de companhias de tecnologia que não fazem questão de fingir qualquer propósito ético e abraçam a dinâmica do lucro e da atenção como a única em que vale a pena concentrar suas energias. 

    Mas, voltando à minha irritação inicial: por que é tão difícil encontrar conteúdo de qualidade hoje em dia? Porque conteúdo de qualidade não se traduz em lucro; nossa atenção, sim. E, infelizmente, não é tão difícil assim consegui-la.

  • O que queremos da inteligência artificial?

    O que queremos da inteligência artificial?

    Para acordar, olho meu celular, abro uma rede social qualquer e passo os primeiros 10 a 20 minutos do meu dia consumindo a seleção desleixada de conteúdo feita especialmente para mim. Tomo café, escovo meus dentes, me sento na frente de um computador e trabalho com inteligência artificial. Uso a tecnologia, estudo a tecnologia… e, mesmo quando escrevo e procuro ser criativo, ela está aqui, me auxiliando, me podando, me observando.

    Pensando bem, quem eu mais quero agradar no final do dia são os algoritmos. Fico esperando que eles olhem o meu trabalho e, por um capricho ou outro, o coloquem aí, no seu feed.

    AI slop, escrita de IA, marketing de IA, soberania de IA, funcionalidades com IA. Tantos termos que às vezes sinto que estou me afogando no volume de aplicativos, conteúdos e propagandas que sou forçado a engolir…

    Na verdade, ninguém me força. Eu que vou atrás, abro os aplicativos assim que acordo e antes de dormir. Eu que gosto de estudar esse assunto e aprender um pouco mais, ficar à frente da curva.

    Eu que quero usar essa ferramenta para tornar meu trabalho melhor e o trabalho das outras pessoas também. Mas quanto mais estudo, quanto mais aprofundo meu conhecimento, mais me pergunto: essa tecnologia pode fornecer o que eu realmente quero? Mais ainda, o que queremos tanto com “IA isso”, “IA aquilo”? Esse admirável mundo novo que se insinua nos noticiários é real?

    Uma IA para chamar de sua

    O turbilhão de manchetes, propagandas e opiniões que aparecem no meu feed pinta um cenário idílico ou apocalíptico, dependendo do momento. Diante do caos, a inteligência artificial aponta um sentido: modernização, produtividade e controle. Frente à competitividade do mercado de trabalho, utilizar a ferramenta aparece como regra nos escritórios, e quem não estiver de olho na melhor do momento corre o risco de ficar para trás. Para quem despenca no tédio, sempre existe um meme ruim gerado por IA em algum canto da internet, feito especialmente para o seu perfil de navegação.

    A inteligência artificial se apresenta como a resposta para todos esses anseios. Mas o caos, a competitividade e o tédio continuam. Ainda assim, o mercado cresce, as ferramentas crescem, ganhamos controle de alguns aspectos das nossas vidas, perdemos o de outros, ficamos mais produtivos, o salário continua o mesmo, e damos uma leve risada antes de perceber que os animais fofos pulando no trampolim foram gerados artificialmente — e passamos para o próximo vídeo.

    Talvez o que alimente esse desejo seja ter algo sempre disponível para oferecer uma gota de conforto sempre que precisarmos. Quando temos uma dúvida, uma demanda mais difícil do que o normal ou mais chata do que podemos aguentar, a inteligência artificial está ali para ajudar. Na falta de alguém para conversar ou de algo para fazer, é só pegar o celular e ver o que o algoritmo escolheu especialmente para mim. Com IA, não existe desafio grande demais, não preciso me sentir desconfortável ao fazer uma pergunta boba, não sou julgado, todas as minhas ideias são boas… só preciso melhorar uma coisa aqui e ali e, bum, sucesso.

    O que eu quero da inteligência artificial

    Com o robô, eu sou livre para fazer o que realmente importa. Tenho a ideia, ele me ajuda a encontrar o melhor caminho. Eu fico com a decisão e com a parte criativa, ele faz a parte chata. Com o robô, eu nunca me arrisco de verdade. Com ele, tudo está confortável.

    Apesar de toda essa divagação sem sentido, não sei o que queremos com a inteligência artificial. E, por mais que eu tente navegar nesse mar de informação que consumo todos os dias, só consigo ficar com a cabeça fora d’água graças ao meu colete salva-vidas. 

    Mas pelo menos eu sei o que eu quero. Eu quero eficiência, velocidade, qualidade, objetividade, certeza e controle. Eu quero a resposta para todas as perguntas do mundo! Um sistema computacional preditivo, capaz de analisar um ambiente e tomar ações com algum grau de autonomia, pode me dar tudo isso? Eu tenho minhas dúvidas.

    Acredito que, quando nos deparamos com uma nova tecnologia — seja o rádio, a TV, o computador, a internet ou, agora, a inteligência artificial —, acabamos projetando nela nossos anseios. Achamos que, com a tecnologia e o progresso, um dia vamos nos libertar do que nos incomoda e ser capazes de fazer mais daquilo que realmente importa. A realidade é que sempre progredimos em algumas áreas e regredimos em outras.

    Para dormir, olho meu celular, abro uma rede social qualquer e passo os primeiros minutos da noite com a seleção desleixada de conteúdo feita especialmente para mim. Antes de largar o telefone, confiro se alguém, ou algo, reparou no que escrevi hoje. Amanhã acordo e começo tudo de novo.